
ALTA RECOMPENSA
Alta recompensa investiga as relações entre o amor, a dependência e os mecanismos neurobiológicos da recompensa. Partindo do diálogo entre pintura e neurociência, o projeto examina como vínculos afetivos e dependências químicas ativam processos semelhantes de expectativa, prazer, abstinência e repetição. As pinturas funcionam como registros visuais de um corpo que aprende a abandonar determinadas formas de recompensa enquanto busca novas maneiras de reorganizar sua experiência.
Status: Pesquisa em desenvolvimento. Linguagens: Pintura · Escrita · Neurociência
Palavras-chave: Amor · Dependência · Recompensa · Memória
INICIO
Alta recompensa nasceu a partir da experiência de um relacionamento amoroso que transformou profundamente minha relação com o corpo e com o prazer. Durante esse período abandonei o álcool, o cigarro e outras substâncias psicoativas, substituindo formas artificiais de recompensa por uma experiência afetiva. Após o término da relação, voltei aos antigos hábitos, mas decidi retornar à sobriedade durante a realização desta série.
As pinturas tornaram-se, assim, parte do próprio processo de transformação. Não representam apenas a memória de um romance, mas também o registro de um corpo que aprende a reorganizar seus sistemas de recompensa enquanto constrói uma nova forma de habitar o desejo.
ESTUDOS PARA UM AMOR SOBRIO
Durante o desenvolvimento de Alta recompensa, decidi permanecer completamente sóbrio: sem álcool, cigarro, drogas e açúcar. Essa escolha não funciona como disciplina moral, mas como parte da própria metodologia do projeto.
A série investiga uma contradição fundamental: pintar a lembrança de uma das maiores fontes de prazer da minha vida enquanto elimino, simultaneamente, todas as demais formas de recompensa química.
As pinturas deixam de representar apenas um romance e passam a acompanhar um processo de reorganização do corpo, no qual um sistema de dependências é gradualmente substituído até que nenhuma delas permaneça.
INFLUENCIA DO ÑANDUTI
O ñandutí, renda tradicional do Paraguai cujo nome em guarani significa "teia de aranha", tornou-se uma referência estrutural para esta série. Sua construção é baseada na repetição de fios que irradiam a partir de um centro comum, formando uma rede delicada de conexões.
Em Alta recompensa, essa lógica é reinterpretada como metáfora dos circuitos neurais. Assim como os fios do ñandutí conectam diferentes pontos para formar um único desenho, os circuitos de recompensa estabelecem redes de conexões responsáveis por organizar nossas experiências de prazer, memória, desejo e afeto.
As texturas presentes nas pinturas não reproduzem o ñandutí como ornamento ou elemento decorativo. Elas funcionam como uma tradução visual dessa estrutura de conexões, aproximando uma tradição artesanal paraguaia das imagens produzidas pela neurociência contemporânea.
Ao colocar lado a lado essas duas formas de conhecimento — o saber artesanal e o científico —, o projeto propõe um encontro entre memória cultural e investigação biológica, sugerindo que tanto os tecidos quanto o cérebro são construídos por redes, repetições e relações.
As pinturas funcionam como imagens hipotéticas produzidas por um exame impossível: uma ressonância magnética funcional capaz de registrar a atividade de um cérebro apaixonado.
TEXTO CURATORIAL
Núcleo curatorial: O que acontece quando uma pessoa abandona todas as formas artificiais de recompensa e decide atravessar a lembrança de um amor completamente sóbria?
A neurociência do amor e a neurociência da dependência não pertencem a campos distantes. Pelo contrário, compartilham uma mesma arquitetura biológica: sistemas de recompensa, dopamina, antecipação e abstinência. Álcool, nicotina, drogas, açúcar e até mesmo os vínculos afetivos ativam circuitos que o cérebro interpreta como necessidade, urgência e alívio.
Nesse sentido, apaixonar-se não é apenas um estado emocional; é também uma forma de dependência neuroquímica.
Alta recompensa situa-se nesse limiar em que o afeto deixa de ser metáfora para tornar-se sistema nervoso. As pinturas não representam o amor: registram seus vestígios. Funcionam como dispositivos de leitura interna, quase como imagens produzidas por uma ressonância magnética funcional de um cérebro atravessado pela ausência de sua própria recompensa.
A pintura, aqui, não ilustra lembranças; ela as reorganiza. Cada obra opera como um vestígio ainda ativo, um estímulo que persiste mesmo depois da ausência de sua origem. O corpo surge como um território de transição entre dependência e abstinência, entre memória afetiva e desintoxicação emocional.
Nesse contexto, o ato de olhar transforma-se em um exercício de abstinência. Sustentar a imagem significa sustentar o desejo sem consumi-lo. Permanecer diante da pintura é aprender a habitar a falta sem preenchê-la imediatamente.
As obras não falam apenas de um amor perdido. Falam dos sistemas que o produzem, o sustentam e o retiram. Falam de um cérebro aprendendo a substituir uma dependência por outra e, por fim, confrontando a possibilidade mais radical de todas: a de permanecer sem nenhuma delas.